Não Vai Ter Colapso.

Falar sobre a morte é um tabu.

Nos últimos meses temos falado sobre ela o dia inteiro – o que não é tão ruim como parece. Nesta dramática experiência de contágio acelerado por um vírus desconhecido, estamos sendo obrigados a pensar sobre o luto, seus rituais e sua importância nas nossas vidas.

Esta é a opinião da Gisela Adissi, a jovem presidente da Associação dos Cemitérios e Crematórios Privados do Brasil (Acembra) e do Sindicato dos Cemitérios e Crematórios do Brasil (Sincep). Gisela também é uma das sete mulheres que integram o grupo Vamos Falar Sobre o Luto!, criado em 2015 para compartilhar informações e histórias e amparar quem passou pela experiência mais difícil do mundo.

– Por qual desafio o sistema funeral está passando ou vai passar com a pandemia?Entraremos em colapso, assim como pode acontecer com o sistema de saúde?

Nada indica que chegaremos a esse ponto. Temos capacidade nos cemitérios e nos crematórios. A nossa dificuldade está no número de câmaras frias que, grosseiramente falando, são os locais onde os corpos são depositados até sua liberação para a funerária. Algumas cidades, como São Paulo, onde o número de óbitos por Covid-19 é alto, estão preocupadas com o assunto e se preparando para criar espaços de armazenamento de corpos. É importante também que se acelere a liberação de funcionamento dos novos crematórios, que são locais com grande quantidade de câmaras frias. Existem muitos crematórios na fila de espera por causa da burocracia.

Como os cemitérios estão lidando com a pandemia? Há uma sobrecarga muito grande?

No Brasil, temos em média 3.500 mortes por dia de todas as causas. Até 21 de abril, o número de pessoas que morreram com Covid-19, ou com suspeita da doença, era de 3.094, segundo o site dos cartórios de Registro Civil que está no Portal da Transparência do governo federal. [No dia 21 de abril, o Ministério da Saúde divulgou o número de 2.741 óbitos. A diferença entre os números talvez se explique pela inclusão, dos cartórios, dos óbitos suspeitos.] Então, o número de mortes pela Covid fica quase irrelevante se olharmos apenas para a média. Mas se mergulharmos nas cidades que são centros da doença, como São Paulo, aí, sim, vemos uma diferença que se torna expressiva. Mesmo assim, não a ponto de paralisar nosso setor. Na minha opinião, o grande desafio nessa questão está no processo do luto, como vamos passar por ele, com tantas restrições e mudanças.

Que tipo de impacto essas dificuldades podem causar nas famílias afetadas pela doença?

Embora muitas famílias peçam que não haja velório para evitar risco de contágio, a maioria sofre a privação da despedida. No projeto Vamos Falar Sobre o Luto!, costumamos dizer que o luto não tem cura, porque não é uma doença, mas tem uma trajetória que precisa ser elaborada. São as cinco etapas clássicas: a da negação, da letargia, da barganha, da raiva e da aceitação. Não necessariamente precisam vir nessa ordem e nem precisam acontecer da mesma forma para todas as pessoas. Algumas etapas, inclusive, podem se repetir. Dentro do processo de luto, essa trajetória é importantíssima para que haja a despedida sem culpa, sem arrependimentos. Pela minha experiência, as despedidas mais difíceis são aquelas em que a família sente que não conversou o suficiente e, na hora do luto, percebe que mal conhecia a pessoa. Não se sabe qual a flor preferida, a música… Se isso já é complicado, imagine agora em que temos uma condição que nos impede de cumprir todas as etapas do luto.

E a ideia da morte que está nos rondando 24 horas por dia? Que efeitos sofremos desse luto coletivo?

É muito angustiante, com certeza. Mas tem uma coisa positiva, que é o fato de falarmos sobre a morte. Nós sempre negamos a morte, é um tabu tão grande que, apesar de ser inevitável, apenas 10% das pessoas se preparam para esse momento, adquirindo um plano, um seguro, tomando providências para sua despedida. Agora, a gente está falando sobre o assunto, ele está em cima da mesa. Acreditamos piamente que, para suportarmos o luto, precisamos falar dele.

 

Obrigado pela leitura

Este post tem um comentário

  1. Leonardo Calazans dos Santos

    Eu penso que o desafio está sendo mesmo na experiência das famílias enlutadas em ter que se despedir em meio a tantas restrições adotadas pelos governos estaduais e municipais, por conta da pandemia do covid-19. Diariamente os familiares questionam os funcionários dos cemitérios a respeito da necessidade de tanto rigor nos procedimentos dos sepultamentos. O interessante será buscar o contato desses familiares para disponibilizar meios para elaborar o luto num momento atípico de nossa realidade cotidiana.

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